O Despertar do Inverno da Alma

O Despertar no Inverno 

da Alma. 


Havia uma urgência ancestral que batia à janela naquela tarde chuvosa e fria. Quando o céu desaba em tons de cinza, a alma se descobre inquieta, operando em uma frequência que o mundo moderno insiste em ignorar. Viver torna-se, então, a experiência mística de habitar um sonho dentro de um sonho. Os pensamentos chegam como marés implacáveis, dão voltas completas ao redor do mundo e recusam-se a ir embora, ecoando nos corredores de uma mente que já não consegue se contentar com o esquecimento.


Às vezes, por um breve e frágil instante, a tentação da anestesia emocional sussurra como um refúgio. Diante da engrenagem ruidosa e superficial dos dias atuais, a indiferença surge mascarada de blindagem para o próprio coração. É o desejo silencioso de não sentir, de se perder na multidão que caminha adormecida. Todavia, para aqueles em quem a centelha da consciência já despertou, esse anestésico não surte efeito. O bálsamo do esquecimento falha. Uma vez rasgado o véu da ilusão, caminha-se de olhos abertos por entre a névoa, ainda que a alma permaneça temporariamente trancada, resguardando sua essência no claustro, aguardando por uma liberdade cuja origem ela mesma desconhece.


✦ ✦ ✦


Nessa vastidão solitária, o amor se impõe não como uma equação a ser resolvida, mas como um mistério que simplesmente se aceita. Ele não exige justificativas de fôlego curto nem explicações rasas, pois as grandes verdades do espírito não encontram eco na lógica imediata do plano manifesto. No tecido da modernidade, onde o amor deveria se estender como um oceano soberano, a humanidade recolhe apenas gotas esparsas. Quem carrega o oceano em si depara-se com a incompreensão daqueles que só conhecem a aridez.

Se a poesia hoje parece morrer no inverno,

Ela apenas recolhe sua seiva ao solo profundo.

O amor que aceito é absoluto e eterno,


Não cabe nas margens estreitas deste mundo.

A poesia, que às vezes simula sua própria morte sob o peso do inverno da alma, nunca se extingue de fato; ela apenas recolhe suas forças para a raiz, protegendo-se da geada conceitual da época. Ela aguarda, paciente, o chamado invisível de uma primavera qualquer para renascer. A liberdade ansiada não virá de fora, tampouco das concessões de um mundo raso. Ela se revelará no instante alquímico em que a alma, cansada de conter a própria imensidão, decidir romper o lacre do silêncio e transmutar o frio da tarde chuvosa na mais pura e perene escrita. Assim nasceu uma poesia no vértice do silêncio daquela tarde chuvosa aos embalos de Led Zeppelin que logo estará no ar..🎧✍️




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