A Travessia de Perséfone


O Portal de Perséfone e o Ventre de Gaia.

Antes de iniciar essa travessia, o mundo ao meu redor moveu-se. Pessoas chegaram, outras partiram. Houve também algumas conversas e encontros com o divino masculino. Experiências profundas que, no momento oportuno serão relatadas. Sempre achei que após tudo que havíamos passado, haveria um reencontro com maturidade espiritual. Mas no fundo eu sabia que não estávamos prontos. O tempo do universo nunca é o mesmo que o nosso. Meu chamado interno foi o mesmo eco dele, de travessia. 

Fiz uma viagem para as montanhas, em uma trilha com algumas mulheres de dez quilômetros adentro da mata selvagem. A trilha foi intensa e cheia de desafios. Caminhando naquela natureza intocável eu tive absoluta certeza que não era ao acaso que eu estava com aquelas seis mulheres, que exalavam o néctar e a força de Perséfone. Ao final adentramos em um belo portal de Gaia esculpido dentro de um cânion muito alto. A energia do pulsar da Terra era muito intensa. Aquelas pedras tão antigas guardavam segredos da humanidade. A sensação que eu tive, era de estar retrocedendo ao útero da Grande Mãe. A escuridão e o silêncio que chegavam pelos cantos das pedras, era o reflexo da passagem de Perséfone. O exato momento em que ela perde a inocência e a consciência desperta, permitindo que o arquétipo menina morresse, para renascer como rainha do seu próprio mundo. Li sua história no livro Jornada da Heroína e parecia que eu estava fazendo aquela mesma travessia. 




A menina que esperava pelo retorno do cavaleiro perdido nas areias do tempo, precisou morrer dentro de mim. Naquele eco das rochas, minha história refletia as sombras da montanha. Eu sabia internamente que era meu ritual de passagem. Um portal de ida sem volta. A busca por partes dos ossos do destino que deixei enterrados em algum lugar do passado. Eu estava cumprindo aquilo que escrevi algum tempo atrás em meu livro. Pertencendo a mim mesma. 

Internamente a certeza que o divino masculino só faria a sua própria travessia quando se encontrasse na escuridão e no silêncio absoluto, sem guardiã guiando a jornada. O universo, me mostrou mais uma vez, que estava ao meu lado mesmo eu não acreditando. Era a chegada a hora da travessia de ambos O silêncio e o afastamento, são a medicina para que nossos corações sejam purificados nesse momento. Se houver um capítulo final escrito pelo universo ele acontecerá no tempo divino sem controle de ninguém. 

Ainda encontro com sua energia e sua alma em sonhos astrais. Nossa separação é somente nos limites da 3Dimensão pois, o elo que une chamas gêmeas atravessa tempo e espaço. Sei que o chamado da alma muitas vezes é bloqueado pelo medo do ego em perder o controle sobre si e sobre os próprios sentimentos. Mas é chegado o tempo divino sem controle, que ignora as amarras humanas. Assim, eu estava entregue de corpo e alma ao meu destino imantado no coração de Gaia.




Em meio ao cansaço da jornada, cheguei a cogitar o abandono da escrita. Mas percebi naquele lugar, que ela é meu refugio e minha inspiração. Escrevo quando a alegria contagia minha alma, mas também quando a dor de suportar tudo vira um suplício. Então entendi finalmente que abdicar da escrita seria como abdicar do ar que respiro e seria como deixar de viver. 

A profundidade, a escuridão e o silêncio são minhas eternas companhias.


Deixe-me sentar aqui, 

no limiar de dois mundos.

Perdido na eloqüência do silêncio.

(Rumi)

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